sábado, 12 de março de 2011

DESVIRANDO ESSA NOSSA
VIRADA CULTURAL
(MITOS E POSSIBILIDADES DE UMA CULTURA ALTERNATIVA)

Dizem muitos daqueles que inventaram, criaram e deram vida a esse projeto interessante e vistoso de uma “tal” Virada Cultural, em discursos enfadonhos com seus tantos proselitistas, que a estruturação seria de certa forma um propósito, paramentado, acondicionado e incurso em uma Política Pública para a Cultura com conceitos inclusivos. Será que é isso mesmo?
Mas eu vos pergunto, onde está o público nessa história? Onde é que entra o público na verdade dessa história pública? Quem nessa história pública se fez ou se tornou consulente daqueles criadores do projeto? Quem se deu realmente ao luxo de arguir com o povo, com as comunidades, com a entidades culturais, com os agentes artísticos de bases comunitárias para que se pudesse querenar ou dar um propósito realmente de Política Pública para o evento?
Não adianta pintar histórias nos centros das cidades onde acontecem os eventos, com supostos conteúdos que não refletem os interesses e não dizem respeito aos enseios da população... Não adianta dizer que está dentro de propostas de revitalização urbana de área central. Isso é muito pouco, sendo um discurso pequeno e vago. É para isso que existe e se fizeram criar os encontros e moldes de Orçamentos Participativos e outros engodos da municipalidade modernista?
É sabido pois, que num primeiro momento, todo projeto quando emerge, quando surge e quebra a casca do ovo, de forma assertiva sempre acaba por contemplar aos artistas que vivem à margem da estrutura cultural da cidade. Sim, num primeiro momento tudo caminha às brisas do consenso, da ordem estabelecida e por indicadores de qualidade, mas depois sempre finda por degringolar...
Mas essa Virada Cultural pode realmente ser considerada um retrato verídico da diversidade cultural dessa nossa megalópolis, ou trata-se apenas de surrealismo daqueles incontroláveis megalomaníacos das artes? A história nos relata sobre muitos desses aventureiros de plantão...
Que tipo de assertividade e representatividade pode ser ostentada e conclamada por essa tal Virada Cultural? É uma representatividade valiosa, de teor verídico ou quiçá, um conceito real apenas e tão somente segundo aqueles tantos produtores e empreendedores culturais do seguimento de entretenimento que conseguem inserir os seus artistas e produtos nesse “mercado”?
Certamente, que dentro dos mecanismos da criação e dos postulados sui generis das artes em geral, a Virada Cultural não pode ser vislumbrada, como também não deve se apresentar ou se mostrar como uma nave mãe, uma acolhedora ou produto notável da matemática final da Política Cultural de um governo que se preze. Esse universo é muito mais grandioso.
As Políticas Públicas Para a Cultura não podem ser pautadas apenas e tão somente em eventos de “massa” ou até talvez para tencionar em se firmar como mecanismos com o dom de manipular as massas com seus conceitos um tanto ortodoxos e em muitos casos de cunho eleitoreiro. Tudo deve se pautar em idéias, continuidade e também ideais reais de formação...
Eventos que buscam uma certa sazonalidade sem continuidade e, sem que se possa atingir às diversas áreas não podem se delinear e insertos como uma pluralidade de política cultural com autenticidade. Todos esses eventos especulativos das artes, de características passageiras e sazonais, podem certamente criar o fenômeno da falta de continuidade para outros eventos de teores mais sérios. O continuismo é importante no contexto geral, para que as cidades, núcleos fundamentados das artes e criação de muitas comunidades excludentes do sistema, aumentem e alimentem com objetividade as contingencias culturais.
Faz-se necessário uma discussão mais combativa e intensa, para que se possamos repensar essa questão do contexto que se fora formulado para a organização, criação e prática desse evento com seu gigantismo ás avessas. Temos que argumentar também e discutir de forma severa com as bases comunitárias de produção cultural e artística, acerca do contexto ideológico ou político de um evento de massas. É sim muito importante e necessário que se aclare e se detecte quem faz o evento e, para quem o evento é feito de forma efetiva e objetiva?
Evidentemente, diante do mundo moderno em que vivemos, que não possa caber mais de forma alguma ao poder público em se mostrar tão identificado com o conservadorismo... Não são apenas os artistas midiáticos de sempre que praticam a arte como produto e cultura de base, como também não são os seus herdeiros os únicos perpetuadores dessa sina e história cultural. A arte e a cultura em geral possui um poder dinâmico que se diferencia de outros processos de ciências da humanidade. A arte é um dos poucos frutos que pode nascer, florescer e vingar em quaisquer terrenos, mesmo que possa parecer infértil e inculto...
Mesmo que o poder público possua a doença da estagnação, da prepotência e da arrogância, que por muitas vezes se arraiga no cerne de muitos administradores culturais... Mesmo que possam muitos desses do poder público, estarem enviesados, vivendo e possuidos da doença de impotência no criar e no agir, mesmo assim são obrigados e tem por dever se aproveitar dos bons ventos e das sobras das marés criativas, fazendo bom uso das potencialidades artísticas que se estão sendo lançadas e, deslizando no mar do acontecimento e realização que esses artistas anônimos nos despejam cotidianamente.
Os independentes e alternativos lançam e propõem idéias e conceitos que carecem e precisam de ser peneirados e melhor aproveitadas pelo sistema cultural do Poder Público. O poder público vive da magnanimidade avassaladora e por muitas vezes essa enfermidade vai se espraiando para outras áreas. Somente aquilo que produzem faz parte das verdades culturais, segundo o conceito desse poder articulador oficial. Isso não é uma verdade absoluta, já que essa verdade é inexistente...
Vivemos em uma era de modernidade e humanização e, não cabe mais qualquer tipo de estrutura imperialista ou magnânima em propósitos de administração cultural. Tudo há que ser feito e delineado plenamente em função dos anseios do povo. Todos nós crescemos diante dos erros e aprendizados em nosso cotidiano. Ninguém cria um sistema cultural sozinho.
Por diversas vezes nos perguntamos: porque é que as ações culturais de grandes proporções se realizam ou se utilizam de verbas do Tesouro Municipal, quando poderiam perfeitamente lançar mão de verbas advindas ou consignadas por meio de parcerias privadas e juntadas com numerários de fundos outros diversos? Essa possibilidade também é uma realidade...
Nós não podemos cair em uma cilada cultural ou deixar se arvorar em cada um de nós a idéia, de que a Virada Cultural possa ser a nosso a redenção. Não podemos nos conformar em aceitar que isso se torne um padrão da prática oficiosa da Política Pública Para a Cultura da Cidade. Esse projeto é apenas um caminho, onde se pode denotar uma certa diversidade artística e o lado cultural dessa ou de outras grandes metrópoles, o resto são argumentos e possibilidades apenas futuristas.
Sim, a Virada Cultural pode ter o atributo em ser decantada de forma exaurida com possibilidades em até ser um cartão postal, além de ser em muitos casos o bandido, o mocinho, a santa e também a vilã para os conceitos e postulados das intenções culturais da nossa cidade. Mas o argumento que podemos colocar é que um ano possui 365 dias e, nos outros dias o que se poderá oferecer? As realizações não podem ocorrer assim como se o mundo fosse acabar amanhã, logo após todos os eventos. Tudo é movimento e continuidade, dentro do mundo real.
Sim, pode até ser que a Virada Cultural já tenha assumido um perfil ou a cara da cidade como muita gente queira pressupor. Mas não podemos forçar a barra, conforme a situação se denota. São tempos difíceis e são outros tempos, onde o dinheiro público deve ser utilizado de forma responsável e para os anseios da comunidade artística a que se está reservada legalmente.
Pode ser mesmo, que a Virada Cultural tente retratar de forma lídima e singular as pluralidades das artes que a cidade toda irá consumir e deglutir em um único dia. Mas não se trata de uma Política Pública que comprove ser fidedigna e, que se retrate a austeridade e o empenho dos governos no tocante á realizações, contudo, se faz necessário dizer que sem cultura de verdade e com vaidades, certamente não haverá vias para a história.
 
Beto Santos é cantor e compositor, fazedor de cantorias, cantor performá tico, escritor free de contos e causos do cotidiano, Delegado Nacional do Sindicato dos Músicos Práticos e Intérpretes do Brasil (Sinpratec), Produtor Cultural e Musical, Membro Fundador do Movimento Negra Música, sendo também o segundo mais antigo concorrente dos Circuitos dos Festivais de Música ainda em atividades no Brasil.   betosantos2006@yahoo.com.br

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